Ir & Companhia- Um roteiro entre serras.

Ir & Companhia- Um roteiro entre serras.

Um roteiro entre serras, porque aqui nunca há dias maus.

O velhinho 2CV, qual D. Quixote, vai galgando as estradas das serras da Estrela e da Gardunha Fotografia: Miguel Proença

Elisa Bogalheiro /Aqui Há Beira – elisa.bogalheiro@aquihabeira.pt

No verão procure a fresca nas serras da Beira, um passeio entre a Estrela e a Gardunha, entre vales, lagoas, praias fluviais e algumas das mais belas estradas de Portugal, Ir é o melhor remédio.

Faça sol ou faça chuva aqui há sempre estrada para desbravar e recantos para explorar. Com sol e temperaturas altas, mergulhe nas águas frescas do Zêzere, mas se a chuva se apresentar, tenha calma, aqui nunca nada está perdido. Isso sim, vista um impermeável, aperte os cordões às botas e venha daí explorar a maior cadeia montanhosa do país. Pelo meio fique a conhecer três cidades, cinco aldeias, duas praias, um incrível vale glaciar, além de um sem número de nascentes, trilhos, cheiros e sabores. Preparámos este roteiro para que o possa fazer de trás para a frente ou de frente para trás, como melhor lhe aprouver, ou para onde o vento soprar. Porque realmente não importa por onde começa, desde que começe. Aperte o cinto e faça-se à estrada que a aventura está no IR.

Um percurso que deve ser feito devagar para apreciar a paisagem e fazer a digestão. Fotografia: Miguel Proença

Gouveia. Uma orgulhosa cidade serrana a 700 metros de altitude que se levanta todos os dias com uma vista panorâmica sobre o Vale do Mondego que dá gosto. Como em todas as cidades de montanha prepare-se para os planos inclinados, um sobe e desce de ruas que nos guiam por pequenos labirintos graníticos, conheça a Igreja Matriz do século XVII, muito próxima da Casa da Torre, o Pelourinho, a Fonte de São Lázaro de 1779 ou a Igreja da Misericórdia, datada do séc. XVIII.  No entanto, em Gouveia não pode mesmo é perder duas coisas: o queijo da Serra e a natureza gloriosa que a rodeia. Suba até ao Monte Calvário e descubra porque é que uma sandes de queijo amanteigado tem outro sabor quando acompanhado por uma vista desafogada. Em seguida vamos a banhos até ao Vale do Rossim. Criada artificialmente, é a praia mais alta do país, e será, possivelmente, também a mais fria. Mas não é tudo, o Vale do Rossim está integrado na reserva biogenética do Planalto Superior o que faz desta zona um sítio especial para explorar a pé, os blocos de granitos semeados por entre a vegetação criam uma paisagem agreste que parece de outro mundo. Depois de um mergulho, espreguice-se ao sol e deixe-se acariciar pelos ares da Serra.

Levantar cedo com uma vista panorâmica sobre o Vale do Mondego. A cidade de Gouveia convida a um pequeno passeio antes de nos fazermos à estrada.

Da Lagoa Comprida ao Covão dos Conchos. Se o Vale do Rossim tem a praia mais alta a Lagoa Comprida é a maior das lagoas serranas, e daqui partimos à descoberta do buraco mais famoso de Portugal. Seguimos pelo lado esquerdo da lagoa, por um caminho de terra batida rodeado de vegetação rasteira e grandes fragas graníticas com alguns apontamentos de musgo, vamos descobrindo um trajecto relativamente plano de aproximadamente 10 kms (ida e volta) que nos leva até ao Covão dos Conchos, que parece uma lagoa, mas que é na verdade mais uma pequena barragem que desvia as águas da Ribeira das Naves para a Lagoa Comprida através de um túnel subterrâneo com 1519 metros de comprimento. É a entrada desse túnel, que se assemelha a um gigante funil no meio da água que impressiona os caminhantes que o descobrem. Apesar das temperaturas serem um pouco mais amenas no cimo da Serra, este é um percurso para fazer nas horas mais frescas.

O buraco mais mais famoso de Portugal. o Covão dos Conchos vale uma caminhada para o encontrar.

Vale glaciar do Zêzere. São 13 kms de extensão de pura maravilha, um dos maiores vales glaciares da Europa e a nossa sugestão aqui é talvez das mais difíceis. Mas se a conseguir seguir à risca, vai voltar para casa de coração cheio. Pare, sente-se e olhe. Descortine lá em baixo o mosaico dos campos agrícolas, as casinhas polvilhadas na paisagem e se for mesmo insistente nesta actividade de máxima concentração irá descobrir por onde a água força o seu passo. Mas veja lá, tenha cuidado, esta actividade é altamente aditiva.

Penhas da Saúde. A aldeia de montanha com muita pinta. Aqui as vistas são outras, com a Cova da Beira aos pés é o sítio perfeito para um piquenique. Depois de atravessar a zona das casas, vai encontrar algumas rochas grandes e lisinhas, mesmo a pedir que estenda ali a toalha, se calcular bem o tempo e o ângulo, vai viver o brinde perfeito com um olho para a Cova da Beira que se vai aconchegando na sombra e o outro para o sol que se despede lançando uns últimos raios de charme sobre a paisagem, pintando em tons de rosa o horizonte.

Penhas da saúde, uma aldeia de montanha com muita pinta.

Covilhã. Bem assente aos pés da Estrela, a cidade ficou conhecida como a Manchester portuguesa graças ao seu passado têxtil, e ainda hoje o seu património industrial merece uma visita: descobrir os vestígios das antigas fábricas, dos lavadouros, os bairros operários e as ribeiras que alimentavam as fábricas quando a água ainda era a principal força motriz. Uma boa forma de explorar a cidade é percorrendo o inigualável roteiro de arte urbana que se inspira na herança têxtil que tornou célebre a cidade.

Cortes do Meio e Bouça. Sim, se não está familiarizado com a toponímia da região, estes nomes vão-lhe parecer estranhos, mas são duas aldeias memoráveis e um verdadeiro hino à natureza. O segredo está em descobrir a ribeira e explorar-lhe o percurso, subindo à Bouça vai encontrar uma aldeia-varanda, daí é aventurar-se pelos caminhos circundantes numa autêntica missão exploratória que deve culminar no Poço do Embude, uma piscina natural rodeada de blocos graníticos e de verde exuberante. As Cortes ficam um pouco mais abaixo e não tendo umas vistas tão privilegiadas compensam com a quantidade de lugares à beira da ribeira onde dá mesmo vontade de estender a toalha e o corpinho.

As águas transparentes e frias na Serra vão-lhe saber a glória bendita nos dias de calor.

Alpedrinha A Sintra das Beiras, em plena Serra da Gardunha é uma vila que não disfarça um ligeiro ar aristocrático, confirmado pelas inúmeras casas senhoriais que convivem lado a lado com bonitas varandas de madeira onde abundam vasos de sardinheiras. O que deve absolutamente fazer em Alpedrinha é engajar-se numa conversa com os locais, que lhe irão contar, com toda a certeza, as histórias das invasões francesas que chegaram à vila, e sobre um misterioso túnel que começa numa das ruas da vila, mas que ninguém sabe onde termina; e ainda experimentar as piscinas de água de nascente que datam dos anos 40 do século passado, uma construção com vistas para o vale que se estende até à raia, e onde já se percebe a mudança de paisagem.

Castelo Novo Começa por nos deliciar logo com o nome, cuja origem está ligada à construção de um novo castelo em substituição do que já existia, mas que não tinha os requisitos defensivos necessários. Por isso, uma visita começa, naturalmente, pelo castelo. Com uma série de passadiços que facilitam o acesso às ruínas da Torre de Menagem para que possa apreciar a magnífica vista sobre a aldeia e a Serra da Gardunha. Depois é perder-se pela aldeia, cheia de recantos, detalhes, casas com portas de cores e chafarizes, muitos chafarizes que aqui há muita água e da boa. Por falar em água, Castelo Novo tem uma praia fluvial mesmo à entrada da aldeia, feita com um sistema de comportas que retêm as águas da Ribeira de Alpreade.

Praia fluvial de Castelo Novo

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